8 de março de 2024

Carolina Maria de Jesus: inspiração para autoras brasileiras inferiorizadas



Autora de "Quarto de despejo" é inspiração para autoras nacionais


Autora do imponente “Quarto de despejo”, Carolina Maria de Jesus, 47 anos após sua morte, continua sendo espelho para milhares de autoras, que encontram através da escrita esperança de ascender na sociedade, que segue inferiorizando minorias e não disponibilizando espaço para que estas autoras possam ocupar de forma digna.

Inspiração para mulheres que escrevem


Em um mundo onde as mulheres precisaram conquistar e continuam lutando por direitos básicos, aquelas que deleitam a alma à escrita enfrentam desafios estrondosos: em primeiro lugar, o fato de a literatura nacional não ter o devido valor no país de origem, em segundo, o esforço que precisa ser feito para ter “voz” em uma sociedade historicamente patriarcal e, por último, como as editoras permanecem em um universo intocável para autores iniciantes ou sem reconhecimento numérico.


Com o crescimento expressivo da internet, mídias sociais diversas e a valorização dos e-books, criar um espaço para ser lida e encontrar pessoas que identificam-se com tal tornou a realidade um pouco menos injusta, embora minorias continuem sendo desmerecidas e as mulheres precisem persistir com garra e determinação atrás dos seus sonhos.


Carolina Maria de Jesus é um exemplo de força e um espelho para todas as mulheres que sonham em publicar livros e ter condições melhores de vida através da escrita.

Uma mulher forte


Carolina, mulher negra, semianalfabeta e catadora de papelão, tornou-se uma das escritoras mais lidas no Brasil com a publicação da obra supracitada, que carrega o subtítulo de “diário de uma favelada”. O livro foi publicado em 1960 e vendeu mais de 10 mil cópias em apenas uma semana.


Ela viveu grande parte da vida na favela de Canindé, na Zona Norte de São Paulo, sustentando a si e seus filhos como catadora de papéis e faxineira, realidade essa que está retratada no livro da autora durante os cinco anos em que a história acontece.



“Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados. Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade.”
 (Carolina Maria de Jesus)




Com relatos cotidianos, Carolina mostrou de forma persistente sua luta contra a fome e a miséria e como ensinava seus filhos a ressignificar a situação que viviam, com a esperança de que a escrita lhe proporcionasse condições melhores de vida. Ela nunca casou-se, pois acreditava que não precisava de um homem ao lado para construir uma vida. Ela criou e educou sozinha três filhos de pais diferentes.


A obra foi publicada sem nenhuma correção ortográfica com o objetivo de tornar ainda mais imersiva a leitura, o que dividiu opiniões no mundo literário: enquanto alguns alegam que a autora merecia o mesmo tratamento como qualquer outro autor ao publicar um trabalho, outros acreditam que a transcrição da história de forma fiel a realidade da autora tornou o sucesso do livro ainda mais plausível, de modo especial porque, mesmo analfabetizada, Carolina tinha uma escrita clara e com poucos erros ortográficos. 


Homenagens à autora


Ela recebeu homenagens ao redor do país, como o “Prêmio Carolina Maria de Jesus” criado pelo Ministério de Cultura com o objetivo de impulsionar a criação literária por mulheres, valorizar autoras nacionais e incentivar a qualidade literária, em que 61 brasileiras foram ganhadoras, após mais de duas mil obras submetidas. Uma das vencedoras é uma escritora transgênero, que aplicou inscrição ao concurso através da categoria de ampla concorrência.


Outra homenagem à autora é o espetáculo “Eu amarelo: Carolina Maria de Jesus” que teve primeira apresentação em 2018 e acontece novamente aos finais de semana deste mês (março) no estado do Ceará, em Fortaleza, através do programa Caixa Cultural Fortaleza.


Carolina Maria de Jesus publicou cinco obras de sucesso, todas traduzidas em 16 línguas diferentes e continua sendo figura importante na carreira de autoras nacionais que colocam tudo de si na escrita e anseiam, ardentemente, por uma vida justa em que suas batalhas sejam mais leves, depois de tantos obstáculos.



Crédito das fotos: edição da revista “Cruzeiro” de 1969 em que é contado o sucesso de “Quarto de Despejo” e história da autora (Reprodução: site Memória BN – DocReader)

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